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Patrimônio arquitetônico conta a história do 4º Distrito de Porto Alegre

Fonte: Pense Imóveis - RS

Publicado em: 16/05/2011

Como dar um novo uso a um prédio antigo sem deixar de lado suas características marcantes, e ao mesmo tempo, dar um ar moderno e, de quebra, tornar-se o ponto inicial de um processo de revitalização decisivo para a economia e crescimento do 4º Distrito? Esse era o tamanho do desafio enfrentado pela Rossi Incorporadora e Construtora quando do desenvolvimento do projeto Fiateci. A obra, um complexo que reúne três torres residenciais, uma torre comercial e um centro de compras na Zona Norte de Porto Alegre, é um projeto de retrofit que deve devolver o ar moderno à região preservando o patrimônio arquitetônico do que foi o pólo industrial da cidade no século 19.

A área, compreendida pelos bairros Floresta, São Geraldo, Navegantes, Humaitá e Farrapos, se desenvolveu, inicialmente, graças à proximidade do Guaíba e da antiga linha férrea. O trem que circulava ali e a proximidade com os barcos no cais possibilitavam o abastecimento de mercadoria para os armazéns dos arredores da Rodoviária. Depois dos armazéns, mais ao Norte pelo então Caminho Novo (hoje Voluntários da Pátria) essa mesma plataforma logística permitia o escoamento da produção industrial instalada na zona. “O 4º Distrito conta a história da cidade, uma vez que foi lá que começaram a se desenvolver nossa economia e indústria, antes de as pessoas subirem o morro em direção ao atual bairro Bela Vista”, comenta o arquiteto Ronaldo Rezende, autor do projeto do Rossi Fiateci.

Foram indústrias como a Fiateci  Companhia Fiação e Tecidos Porto-Alegrense  que atraíram a população para o 4º Distrito. Os trabalhadores das fábricas, em sua maioria imigrantes, principalmente alemães, seguidos por poloneses e italianos, promoveram uma mistura étnica e trouxeram uma bagagem cultural que influenciou na arquitetura dos prédios da região  da qual a construção da antiga Fiateci é um dos principais exemplos importantes que ainda existem, de acordo com Rezende.

A velha fábrica de tecidos evidencia bem as origens da região. A fachada da Voluntários tem elementos germânicos, típicos do que havia na Europa há mais de um século, explica o arquiteto. Ele destaca essa informação a partir de detalhes como as saliências e reentrâncias no revestimento do prédio.

Detalhes como as saliências e reentrâncias dos prédios da antiga fábrica Fiateci são destaques da arquitetura germânica do século 19

Na mesma imagem, nota-se a presença de outros elementos de arquitetura germânica como a marcação de rejuntes, no intervalo entre os blocos usados para erguer a estrutura. Há ainda a presença da chamada “bandeira” na parte superior da janela. O elemento é um círculo partido ao meio (ou, em termos técnicos, um arco de meio ponto) que tem função decorativa.

A simetria na fachada é outro aspecto presente nas construções de influência européia. Na Fiateci, por exemplo, os três galpões têm a porta situada no meio da construção e com o mesmo numero de janelas de cada lado.

O telhado, com grande caimento, é outro elemento característico das construções alemãs, complementa Débora Magalhães, diretora da Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural (Epahc), da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) de Porto Alegre. “É uma herança da Europa, onde eram construídos assim para evitar o acúmulo de neve”, conta a arquiteta.

Vista interna atual da nave principal do prédio da antiga fábrica Fiateci, que será revitalizada

O lambrequim, que liga a nave principal ao segundo prédio do terreno, é outro exemplo típico da arquitetura germânica no início do século passado

Vista da maquete do galpão principal da Fiateci, onde, após um trabalho de retrofit, funcionará um centro de compras. Na imagem, podemos ver os detalhes arquitetônicos germânicos preservados

A chaminé da Fiateci, referência histórica de que havia uma indústria em funcionamento no local, será mantida.

ngulo diferente da maquete do Rossi Fiateci, em que se pode visualizar a chaminé

Enquanto os galpões da área têm influência germânica, a lateral assume um estilo mais próximo ao modernista. É menos rebuscado, mais liso e simples, embora ainda mantenha os frisos horizontais.

Essa simplicidade pode ser percebida na diferença das janelas, que não têm arcos, mas caixilharias (veja os desenhos nos vidros) geométricas.

Embora a construção antiga da Fiateci apresente elementos modernos, os estilos arquitetônicos históricos mais comuns do 4° Distrito são o art déco e o proto-modernista este último é um “meio de caminho” entre o art déco e o modernista. Rezende observa que há poucas construções na região que têm significado arquitetônico histórico e ainda estão de pé. “Sobraram poucos exemplares, e eles estão muito deteriorados”, lamenta.

Um dos principais exemplos do art déco que ainda se pode encontrar no 4° Distrito é a Igreja São Geraldo. Uma das características do estilo arquitetônico é o revestimento em sirex, uma massa que funciona como reboco, mas é mais fina e tem em sua composição a mica, mineral que confere brilho semelhante ao da superfície de uma pedra, explica Débora, da Epahc.

As cores são outras características marcantes do estilo, e costumam ser em tons acinzentados e beges, além de verdes e rosados. A Igreja São Geraldo, na Avenida Farrapos, é um exemplo de ambas as características. Em termos de forma, o art déco apresenta certa geometrização, resultado da abstração dos ornamentos e rebuscos.

A pureza de linhas e formas também caracteriza as construções proto-modernistas. O antigo Moinho Chaves, projetado pelo alemão Theo Wiederspahn é um exemplo desse estilo arquitetônico. Wiederspahn, aliás, assina outros projetos marcantes da paisagem arquitetônica da capital como o prédio do Majestic Hotel, atual Casa de Cultura Mário Quinta, a sede do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e o Edifício Ely, todos no Centro Histórico.

As platibandas, que na construção da Fiateci eram rebuscadas, aqui se caracterizam pela linearidade. As formas retas também aparecem na Igreja São Geraldo.

“Prédios antigos não são eficientes, é caro mantê-los conservados”, diz Rezende. A técnica, além de preservar os elementos arquitetônicos mais antigos, atualiza itens de manutenção e permite que a construção seja reinserida na vida da população local. “Mantém-se a importância histórica a partir de uma função moderna e eficiente.”

“O Fiateci será iluminado à noite, o que vai valorizá-lo e também valorizar o bairro, criará uma nova vida no entorno”, continua, imaginando que o local deve se tornar o ponto de encontro do bairro, emoldurado pela visão do Guaíba.

O complexo desenvolvido pela Rossi é o principal investimento da iniciativa privada na região, responsável pelo início de um processo de revitalização do 4º Distrito. A área, estrategicamente localizada, próxima ao Centro Histórico e ao lado das principais avenidas e corredores de entrada e saída da cidade  incluindo o aeroporto e a rodoviária, é a campeã em destino de recursos públicos (R$ 40 milhões nos últimos cinco anos) e deve ser um dos principais pontos de crescimento da cidade nesta década.

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